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O processo de lenição secundária – De Nevelënizionprocess

Além do processo de lenição de B e D, discutido anteriormente, o hunsriqueano riograndense também costuma sofrer um processo secundário de lenição. Esta lenição, porém, não é fonêmica, ou seja, ela não interfere na compreensão das palavras e não é obrigatória.

Basicamente ela consiste numa sonorização (“voicing”) de consoantes surdas quando em posição pós-tônica, especialmente se seguidas de vogal ou líquida <l, r> e é mais frequente em fala rápida. Apesar de se tornarem mais sonoras que a versão sem lenição, elas costumam não se tornar tão sonoras quanto suas contrapartes sonoras em outras línguas.

Tentemos deixar isso mais claro:

As consoantes afetadas por esta lenição secundária são /p, t, k, f, s, ʃ, x~ç/.

Sofrendo a lenição, elas se tornam levemente sonoras, o que seria foneticamente melhor representado por [p̬, t̬, k̬, f̬, s̬, ʃ̬, x̬~ç̬] do que por [b, d, g, v, z, ʒ, ɣ~ʝ], já que a pronúncia não é tão sonora quanto destas. Como esta lenição não é fonêmica e nem mesmo obrigatória, ela não é representada na ortografia desenvolvida por mim, nem nas ortografias de Wiesemann e de Altenhofen et al.

Abaixo um exemplo para cada consoante, com a pronúncia plena e a pronúncia sofrendo lenição:

/p/: [p] > [p̬]
Tappes: [ˈtʰapəs] > [ˈtʰap̬əs]

/t/: [t] > [t̬]
bete: [ˈpeːtə] > [ˈpeːt̬ə]

/k/: [k] > [k̬]
packe: [ˈpakə] > [ˈpak̬ə]

/f/: [f] > [f̬]
laafe: [ˈlɔːfə] > [ˈlɔːf̬ə]

/s/: [s] > [s̬]
heese: [ˈheːsə] > [ˈheːs̬ə]

/ʃ/: [ʃ] > [ʃ̬]
husche: [ˈhuʃə] > [ˈhuʃ̬ə]

/x/: [x] > [x̬]
Foghel: [ˈfoːxl̩] > [ˈfoːx̬l̩]

/ç/: [ç] > [ç̬]
weche: [ˈveçə] > [ˈveç̬ə]

Lembre-se de que esta lenição não é essencial e falantes tendem a fazê-la apenas em fala rápida. Sua apresentação aqui tem o intuito apenas de esclarecer este ponto da fonética do idioma, já que às vezes uma palavra pode soar para um falante de português como possuindo uma oclusiva ou fricativa sonora devido a este fenômeno.

 

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A ortografia do Hunsriqueano Riograndense segundo Boll, sexta parte – Die Ortografie fom Riograndenser Hunsrickisch noh Boll, sechster Deel

Uma análise do grafema para o fonema – En Analisë fom Grafem zum Fonem

Para finalizar (a princípio) a descrição da minha ortografia, vou apresentar aqui cada letra, dígrafo, trígrafo, etc. e suas formas de pronúncia. Isso incluirá uma revisão do que foi visto nas partes anteriores, além de informações novas:

A: 1. /a/:
1.1 em sílabas átonas: Amesch, eenfach, Gafangjott, Amigo;
1.2 em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita): hatt hart, nass, wall, Katz, basse;
1.3 nas palavras was, das, ab, fa.
2. /aː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante (escrita): Cha, Matërial, problëmatisch.

Ä: 1. /ɛ/ em sílabas tônicas seguidas de mais de uma consoante (escrita): gäll, stärrker
2. /ɛː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante (escrita): där
3. /ɛ/ ou /ɛɪ̯/ quando seguido de <er(C)>: häer, läer, Schäer, Äerd.

AA: /ɔː/: aan, aarem, Daal, schmaal, Zaan, Blaat, Gaarte, faarich.

ÄÄ: /ɛː/: dääd, Bäärt, wäär, Däärem.

ÄH: /ɛː/: während, fähich.

AI: /aɪ̯/: Mai, Kaiser.

AU: /aʊ̯/: schlauAu, sauver, grau.

B: /p/: Baam, ab, gebbbraun, Blum, Bentevi.

C: 1. /k/ antes de <a, o, u> e consoantes em empréstimos do português: Cadeh, Canett, Coraal, complikeerd.
2. /s/ antes de <e, i> em empréstimos do português: Process, incentiveere.

CH: 1. /x/ após <a, o, u, au>: Nacht, Bach, mache, doch, Woch, Frucht, Geruch, brauche.
2. /ç/ após <ä, e, i, ei, eu, äi> e no sufixo diminutivo <-che>: ich, Wech, gleich, weuch, Käich, Necht, Medche.
3. /k/ quando seguido de <s> em algumas palavras: Fuchs, sechs, nichs, Ochs, wachse.
4. /ʃ/ no início de palavras emprestadas do português: Cha, Charutt.

CK: /k/: backe, Sack, Brick, deckle, drockne.

D: /t/: Daagh, dass, drei, gud, Meisder, Schwesder.

E: 1. /e/:
1.1 em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) que não seja <m, n, r>: Canett, best, lecke, Krebs, lechle, gewe;
1.2 na palavra net.
2. /ə/ em sílabas átonas: de, brenne, gemachd, benutze, fegesse.
3. /ɛ/ em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) em que a primeira seja <n, m> ou seguida de <rr>: ferrerst, Hemm, End, Engel, Eng, Kerreb.
4. /eː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante: leve, scheme, ene.
5. /eː/ ou /eɪ̯/ quando seguido de <er(C)>: Deer, fekeerd, meer.

Ë: /e/: tëlëfon, ëlektrisch, Tëlëvisong, guvërneere.
Observação: alguns falantes tendem a fechar esta vogal e pronunciá-la /i/em algumas palavras como Nennëëgaal, Mëlon.

EH: 1. /eː/: Weh, Mehl, gehn, wehle.
2. /eː/ ou /eɪ̯/ quando seguido de <e> ou <er(C)>: lehe, drehe, Leher.

EI: /aɪ̯/: Sei, Heirat, Dummheit, Zeid, Leit, Ei.

ER: 1. /ɐ/ quando átono: awer, immer, Ewert, hunnerd.
2. /ɛ/ quando tônico seguido de outra consoante: Stern, fertich, Errebs.

ËR: /eɾ/: Guvërneer, intërneere.

EU: /ɔɪ̯/: weuch, Hambeuch, Eu, Meunt, Schreu, neun.

F: /f/: Fatter, fa, Aff, uff, laafe, froh.

G: /k/: gans, gemacht, gehn, grien, glaave.

GH: 1. /x/ após <a, o, u>: Daagh, hogh, Besugh.
2. /ç/ após <ä, e, i>: Kriegh, meeghlich, Rëghion.

H: /h/: Haus, heere, dehemm, gehong.

I: 1. /i/:
1.1 em sílabas átonas: Kaffi, nimmiincëntiveere, Millich, automatisch;
1.2 em sílabas tônicas seguidas de mais de uma consoante (escrita): iwer, immer, Ding, Fisch, ich, Millich;
1.3 nas palavras in, sin, mit, bis, is.
2. /iː/ em sílabas tônicas abertas ou seguidas de apenas uma consoante (escrita): Bentevi, Fis, Bivel.

IE: /iː/: nie, Flieghel, Gemies, grien, Bien.

IEH: /iː/: kiehl, Lieh, ziehe, wiehe.

IH: /iː/: sihn, frih, Mihl.

J: /j/: ja, jetz, jimand, Joher.

K: /kʰ/ no início de palavras, seguido de vogal: Kaste, korz, kenne, Kamp, Kamel, Kaffi.
/k/ em outras situações: Krien, Hoke, eeklich, Bank.

L: /l/: Land, ball, kalt, wellich.

LLI (+vogal): /ʎ~lʲ/: Millie, Famillie, Pillia, Barullie.

M: /m/: Mann, immer, dumm, dreime.

N: 1. /ŋ/ antes de <k, g, c>: dunkel, ëncontreere, Schrank, denke, Englisch.
2. /n/ em outras situações: noh, Nenne, dann, Sohn, hin, Dorn.

NG: /ŋ/: Bang, singe, Finger, eng.
Observação: muito comumente é palatalizado [ŋʲ] após /i/, tornando-se similar à pronuncia do NH do português.

NGJ: /ɲ~ŋʲ/: Gafangjott, Lingjasse, Pingje.

O: 1. /o/:
1.1 em sílabas átonas: Kolonie, monteere, normal.
1.2 em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) que não seja <m, n, r>: Gott, Glock, Hols, owe, Rost.
2. /ɔ/:
2.1. em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) em que a primeira seja <n, m> ou seguida de <rr>: Korreb, Sonn, Sommer, komme, sonst, Storrem.
2.2 nas palavras schon, fon.
3. /oː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante: hogh, Stros, wo, don, Mëlon, blose.
4. /oː/ ou /oʊ̯/ quando seguido de <er(C)>: Hoer, feloer, geboer.

OH: 1. /oː/: noh, Schroh, moh, Kohl, Lagoh.
2. /oː/ ou /oʊ̯/ quando seguido de <e> ou <er(C)>: woher, Bohe, Oher, Joher, Wohe.

OI: /oɪ̯/: oi, Moie.

OR (+consoante): /ɔ/: korz, Wort, Korst.

P: 1. /pʰ/ no início de palavras, seguido de vogal: Pack, Pein, Piff, Putsch.
2. /p/ em outras situações: platt, KoppPrim, schuppe.

QU: /kv~kw/: Quell, quatsche.

R: 1. /r/:
1.1 no início das palavras: Reis, rund, rod, Ratt;
1.2 no final de sílabas, exceto se a vogal anterior for <e> ou <o> tônico e a consoante seguinte não for outro R: normal, färrve, nërvees, derr, aarme.
2. /ɾ/ entre vogais ou entre uma consoante e uma vogal: Kraut, braun, Karre, Lehrer.
3. mudo quando segue <e> ou <o> tônico e a consoante seguinte não for outro R: korz, Stern, fort, Herz.

S: 1. /ʃ/ antes de <p, t>: Statt, Spinn, Fest, Wesp, Brust.
2. /s/ em outras situações: Salssies, Schwesder, basse, lese, huppse.

SCH: /ʃ/: Schrank, schwatz, scheen, Disch, Esch.

T: 1. /tʰ/ no início de palavras, seguido de vogal: Tass, Torrem, Tempel.
2. /t/ em outras situações: treffe, hatt, Brust, bedeite.

TSCH: /t͡ʃ/: deitsch, ritsche, batsche, Knatsch.

TZ: /t͡s/: Hitz, Katz, kotze.

U: 1. /u/:
1.1 em sílabas átonas: Cutiseer, Dëputaaade;
1.2 em sílabas tônicas seguidas de mais de uma consoante (escrita): unne, uff, krumm, huppse;
1.3 nas palavras un, um, schun.
2. /uː/ em sílabas tônicas abertas ou seguidas de apenas uma consoante (escrita): du, Wut, Rut, Zugh, Bub.

UH: /uː/: SchuhUher, Kuh, Stuhl.

UU: /uː/: huuste, Puups.

V: /v/: Ove, leve, Vaso, Vokale, Kerrver.

W: /v/: Wasser, wo, awer, gewe, iwrich.

X: /ks/: Hex, Ax, extra.

Z: 1. /t͡s/: Zimmer, Zaanaaz, Herz.
2. /t͡s/ ou /s/ após <n>: Danz, Mienz, ganz, Menz, Panz.

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A ortografia do Hunsriqueano Riograndense segundo Boll, quarta parte – Die Ortografie fom Riograndenser Hunsrickisch noh Boll, fierter Deel

As fricativas do hunsriqueano riograndense – Die Frikative fom Riograndenser Hunsrickisch

O hunsriqueano riograndense distingue seis fricativas, sendo cinco surdas, /f, s, ʃ, x~ç, h/ e uma sonora /v/.

A ortografia das fricativas – Die Ortografie fon de Frikative

/f/: escrita <f> ou <ff>. Exemplos: Feier, AffFatter, Fuchs, finnef

Diferente do alemão padrão, onde tanto F quanto V são usados para representar /f/, em hunsriqueano riograndense usa-se somente F.

/s/: 1. Escrita <s> ou <ss>. Exemplos: sies, Sonn, Tass, basse, huppse

2. Escrita <c> antes de <e> e <i> em alguns empréstimos do português. Exemplos: Accident, anuncieere.

/ʃ/: 1. Escrita <sch>. Exemplos: scheen, Disch, lepschSchrank, Schwein

2. Escrita <s> nas sequências /ʃt/ e /ʃp/. Exemplos: Statt, festSpinn, Wesp

3. O som /ʃ/ é usado na pronúncia de palavras emprestadas do português, do francês e de línguas indígenas que possuem originalmente os fonemas /ʃ/ (escrito CH ou X) e /ʒ/ (escrito G ou J). Estes termos em sua maioria trocam a grafia em questão para usar SCH. Exemplos: Schakett (jaqueta), Scharack (jararaca), Ransch (laranja), Coraasch (coragem), Plantaasch (plantação), Caschumbe (caxumba).

As exceções compreendem:
3.1. Termos do português iniciados com CH, os quais mantém a grafia deste dígrafo. Exemplos: Cha (chá), Charutt (charuto)
3.2. Termos do português com J precedidos de vogal longa, os quais mantém esta grafia. Exemplo: Soja (soja)

/x~ç/: 1. Escrita <ch> após vogais curtas e ditongos e no sufixo diminutivo <-che>
2. Escrita <gh> após vogais longas.
Exeção: aach
Os fonemas [x] e [ç] são alófonos de uma mesma consoante, sendo que:
a. [x] ocorre apenas após vogais posteriores, ou seja, /a, aː, ɔː, o, oː, u, uː/ e após o ditongo /aʊ̯/. Exemplos: aach, Bach, Woch, suche, hogh, Daagh, brauche, Zugh 

b. [ç] ocorre apenas após vogais anteriores, ou seja, /ɛ, ɛː, e, eː, i, iː/, após os ditongos /aɪ̯, ɔɪ̯, (ɛɪ̯)/ e no sufixo diminutivo <-che> /çə/. Exemplos: Nächt, Määghe, ich, Kriegh, Wegh, wech, gleich, weuch, Käich, Medche

Observação: em palavras nativas, esta consoante somente ocorre no final das sílabas e após uma vogal, sendo a única exceção o sufixo diminutivo <-che>.

/h/: Escrita <h>. Ocorre somente no início das sílabas. Exemplos: Haus, heit, Hols, Himmel.

Observação: lembre-se que um H após uma vogal no final de uma sílaba apenas indica que a vogal é longa e não é pronunciado.

/v/: 1. Escrita <w> no início de palavras nativas ou após vogais curtas: Exemplos: Wasser, weid, Zwiwel, awer, gewe, iwer

2. Escrita <v> no início de palavras emprestadas (do latim e do português, principalmente) e após ditongos e vogais longas. Exemplos: Vaso, Vokal, leve, glaave, sauver

Observação: as sequências /ʃv/, /kv/ e para alguns também /t͡sv/, grafadas respectivamente <schw>, <qu> e <zw>, são pronunciadas frequentemente [ʃw], [kw] e [t͡sw]. Exemplos: schwatz, Quell, Zwilling.

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A ortografia do Hunsriqueano Riograndense segundo Boll, segunda parte – Die Ortografie fom Riograndenser Hunsrickisch noh Boll, zwetter Deel

A ortografia das oclusivas

No início das palavras, quando seguidas diretamente por vogais, as consoantes oclusivas do hunsriqueano riograndense compreendem duas séries:
1. Não-aspiradas: /p, t, k/
2. Aspiradas: /pʰ, tʰ, kʰ/
As formas não-aspiradas são representadas por B, D, G e as formas aspiradas por P, T, K.
Exemplos: backe /ˈpakə/ × packe /ˈpʰakə/; danke /ˈtaŋkə/ × Tanke /ˈtʰaŋkə/; Gaarte /ˈkɔːtə/ × Kaarte /ˈkʰɔːtə/

Em outras posições, como no início de palavras após outra consoante, esta diferença é neutralizada. Assim, grien e krien ambas são pronunciadas /kɾiːn/. Gud, rod, hart, Schot, Hut… todas terminam com a consoante /t/. Por que usar duas ortografias então e não padronizar tudo com P, T e K?
Para entender isso, é preciso levar em conta alguns aspectos fonológicos do idioma.

O processo de lenição de B e D – De Lënizionprocess* fon B un D

Como dito acima, não há distinção entre oclusivas fortes (aspiradas) e fracas (não-aspiradas) ao final de uma palavra. Todavia é possível notar que nem todos os /-t/ e /-p/ ao final das palavras se comportam da mesma maneira quando levamos em conta aspectos de conjugação e declinação. Comparemos, por exemplo, as palavras Strud /ʃtɾuːt/ (égua) e Rut /ruːt/ (vara). Ambas terminam com o mesmo fonema /t/. A princípio poderíamos, então, escrever Strud como Stut.
Mas compare os plurais destas palavras:
Strude /ʃtɾuːɾə/ (éguas) e Rute /ˈruːtə/ (varas)
Na palavra Strud, o /-t/ final foi “enfraquecido” para um /-ɾ-/ quando entre duas vogais, enquanto o mesmo não aconteceu com a palavra Rut. Assim, se a palavra é escrita com um D final, este é pronunciado como um R quando uma terminação o faz ficar entre vogais. A escrita não usa -r- nesses casos porque o comportamento deste “r” derivado de um “d” é, fonologicamente, diferente de um “r” verdadeiro.
O mesmo processo ocorre com /-p/ final, como nas palavras Bub /puːp/ (menino) e Bopp /pop/ (boneca), cujos plurais são Buve /ˈpuːvə/ e Boppe /ˈpopə/. Como pode-se notar, no caso de Bub, o /-p/ final foi “enfraquecido” para um /-v-/ quando entre duas vogais. Neste caso a ortografia apresenta a diferença, trocando o B final por um V intervocálico.

A escrita diferenciada de /-t/ e /-p/ no final das palavras, portanto, permite predizer o comportamento deste fonema em formas declinadas e conjugadas. Se a palavra termina em D ou B, estes sons sofrem lenição (enfraquecimento) para R e V quando passam a ficar entre vogais. Já caso a palavra termine em T ou P, o mesmo não acontece.

A pronúncia de S antes de P e T – Die Aussproch fon S forrich P un T

No alemão padrão, a letra S, antes das letras P e T, no início de uma palavra, é pronunciada /ʃ/, da mesma maneira que o trígrafo SCH: Straße /ˈʃtraːsə/, spät /ʃpeːt/, etc. O mesmo ocorre no hunsriqueano riograndense: Stros /ʃtɾoːs/, sped /ʃpeːt/.
A diferença é que no hunsriqueano riograndense esta pronúncia ocorre também nas sequências ST e SP no interior e final das palavras. Portanto, palavras em alemão padrão como bist /bɪst/, fest /fɛst/, Wespe /ˈvespə/ são em hunsriqueano riograndense bist /piʃt/, fest /feʃt/, Wesp /veʃp/.

A terminação da terceira pessoa do singular dos verbos – Die Ennung fom dritte Person Singular fon de Verrbe

No alemão padrão, a terminação que marca a conjugação da terceira pessoa do singular (e da segunda pessoa do plural) no presente é -t: er geht (ele vai), sie macht (ela faz), ihr lest (vocês leem). No hunsriqueano riograndense a pronúncia é a mesma, mas quando sujeito e verbo são invertidos, o mesmo processo de lenição ocorre:
Alemão padrão: geht er? (ele vai?)
Hunsriqueano riograndense: gehr-er? (ele vai?)
Além disso, a letra S nunca é pronunciada /ʃ/ antes dessa terminação. (Vocês) leem é pronunciado /leːst/ e não /leːʃt/.
Baseado nestes dois aspectos, fica evidente que para o hunsriqueano riograndense a consoante final desta conjugação é na verdade um D e não um T. Assim, a ortografia é gehd, machd, lesd.
A terminação da segunda pessoa do singular, que é -st em alemão padrão, permanece -st em hunsriqueano riograndense, visto que neste caso o S sempre é pronunciado /ʃ/. Como exemplo, veja a conjugação em hunsriqueano riograndense do verbo lesen (ler).
ich lese /iç ˈleːsə/
du lest /tu leːʃt/
äer lesd /ˈɛːa leːst/
meer lese /ˈmeːa ˈleːsə/
deer lesd /ˈteːa leːst/
sie lese /siː ˈleːsə/

Explicação etimológica para o uso de D, B, G ou T, P, K – Ëtimologische Auslehung iwer die Benutzung fon B, D, G ore T, P, K

Em outras situações, especialmente no início das palavras, quando seguidos por outra consoante, o uso de D, B e G ou T, P e K tentam refletir a etimologia destes termos. Portanto grien (verde) e krien (ganhar, conseguir), apesar de pronunciados igualmente, possuem diferentes ortografias por sua origem. Compare as versões em alemão padrão grün e kriegen.
Muitos termos que em alemão padrão iniciam em TR, como trinken (beber) e träumen (sonhar) são escritos com DR em hunsriqueano riograndense: drinke, dreime. Isso reflete a segunda fase da mutação consonantal do alto alemão, já que a transformação de D em T não ocorreu em hunsriqueano riograndense em posição inicial.

A ausência de G em posição não-inicial – Das Fehle fon nett-aanfänglichem G

Novamente considerando a mutação consonantal do alto alemão, já sabemos que o fonema ancestral /ɣ/ foi convertido inteiramente em /g/ no alemão padrão. No hunsriqueano riograndense isso aconteceu apenas no início das palavras. Em outras situações ele se manteve /ɣ/ e posteriormente desapareceu por completo (compare alemão tragen, sagen, fragen, regnen e hunsriqueano draan, saan, frohe, rehne) ou ensurdeceu, tornando-se /x/ ou /ç/ e portanto indistinto da consoante representada em alemão por CH (compare alemão weg, Tag, Vogel, Spiegel e hunsriqueano wech, Daagh, Foghel, Spieghel). Assim, todos os casos de palavras terminadas com a consoante /-k/ refletem um /k/ ancestral e jamais sofrem lenição. Portanto G jamais ocorre após uma vogal (exceto no dígrafo GH).

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*Lënizionprocess, de Lënizion (adaptação de Lenição) + Process (processo)

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