O processo de lenição secundária – De Nevelënizionprocess

Além do processo de lenição de B e D, discutido anteriormente, o hunsriqueano riograndense também costuma sofrer um processo secundário de lenição. Esta lenição, porém, não é fonêmica, ou seja, ela não interfere na compreensão das palavras e não é obrigatória.

Basicamente ela consiste numa sonorização (“voicing”) de consoantes surdas quando em posição pós-tônica, especialmente se seguidas de vogal ou líquida <l, r> e é mais frequente em fala rápida. Apesar de se tornarem mais sonoras que a versão sem lenição, elas costumam não se tornar tão sonoras quanto suas contrapartes sonoras em outras línguas.

Tentemos deixar isso mais claro:

As consoantes afetadas por esta lenição secundária são /p, t, k, f, s, ʃ, x~ç/.

Sofrendo a lenição, elas se tornam levemente sonoras, o que seria foneticamente melhor representado por [p̬, t̬, k̬, f̬, s̬, ʃ̬, x̬~ç̬] do que por [b, d, g, v, z, ʒ, ɣ~ʝ], já que a pronúncia não é tão sonora quanto destas. Como esta lenição não é fonêmica e nem mesmo obrigatória, ela não é representada na ortografia desenvolvida por mim, nem nas ortografias de Wiesemann e de Altenhofen et al.

Abaixo um exemplo para cada consoante, com a pronúncia plena e a pronúncia sofrendo lenição:

/p/: [p] > [p̬]
Tappes: [ˈtʰapəs] > [ˈtʰap̬əs]

/t/: [t] > [t̬]
bete: [ˈpeːtə] > [ˈpeːt̬ə]

/k/: [k] > [k̬]
packe: [ˈpakə] > [ˈpak̬ə]

/f/: [f] > [f̬]
laafe: [ˈlɔːfə] > [ˈlɔːf̬ə]

/s/: [s] > [s̬]
heese: [ˈheːsə] > [ˈheːs̬ə]

/ʃ/: [ʃ] > [ʃ̬]
husche: [ˈhuʃə] > [ˈhuʃ̬ə]

/x/: [x] > [x̬]
Foghel: [ˈfoːxl̩] > [ˈfoːx̬l̩]

/ç/: [ç] > [ç̬]
weche: [ˈveçə] > [ˈveç̬ə]

Lembre-se de que esta lenição não é essencial e falantes tendem a fazê-la apenas em fala rápida. Sua apresentação aqui tem o intuito apenas de esclarecer este ponto da fonética do idioma, já que às vezes uma palavra pode soar para um falante de português como possuindo uma oclusiva ou fricativa sonora devido a este fenômeno.

 

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A ortografia do Hunsriqueano Riograndense segundo Boll, sexta parte – Die Ortografie fom Riograndenser Hunsrickisch noh Boll, sechster Deel

Uma análise do grafema para o fonema – En Analisë fom Grafem zum Fonem

Para finalizar (a princípio) a descrição da minha ortografia, vou apresentar aqui cada letra, dígrafo, trígrafo, etc. e suas formas de pronúncia. Isso incluirá uma revisão do que foi visto nas partes anteriores, além de informações novas:

A: 1. /a/:
1.1 em sílabas átonas: Amesch, eenfach, Gafangjott, Amigo;
1.2 em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita): hatt hart, nass, wall, Katz, basse;
1.3 nas palavras was, das, ab, fa.
2. /aː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante (escrita): Cha, Matërial, problëmatisch.

Ä: 1. /ɛ/ em sílabas tônicas seguidas de mais de uma consoante (escrita): gäll, stärrker
2. /ɛː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante (escrita): där
3. /ɛ/ ou /ɛɪ̯/ quando seguido de <er(C)>: häer, läer, Schäer, Äerd.

AA: /ɔː/: aan, aarem, Daal, schmaal, Zaan, Blaat, Gaarte, faarich.

ÄÄ: /ɛː/: dääd, Bäärt, wäär, Däärem.

ÄH: /ɛː/: während, fähich.

AI: /aɪ̯/: Mai, Kaiser.

AU: /aʊ̯/: schlauAu, sauver, grau.

B: /p/: Baam, ab, gebbbraun, Blum, Bentevi.

C: 1. /k/ antes de <a, o, u> e consoantes em empréstimos do português: Cadeh, Canett, Coraal, complikeerd.
2. /s/ antes de <e, i> em empréstimos do português: Process, incentiveere.

CH: 1. /x/ após <a, o, u, au>: Nacht, Bach, mache, doch, Woch, Frucht, Geruch, brauche.
2. /ç/ após <ä, e, i, ei, eu, äi> e no sufixo diminutivo <-che>: ich, Wech, gleich, weuch, Käich, Necht, Medche.
3. /k/ quando seguido de <s> em algumas palavras: Fuchs, sechs, nichs, Ochs, wachse.
4. /ʃ/ no início de palavras emprestadas do português: Cha, Charutt.

CK: /k/: backe, Sack, Brick, deckle, drockne.

D: /t/: Daagh, dass, drei, gud, Meisder, Schwesder.

E: 1. /e/:
1.1 em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) que não seja <m, n, r>: Canett, best, lecke, Krebs, lechle, gewe;
1.2 na palavra net.
2. /ə/ em sílabas átonas: de, brenne, gemachd, benutze, fegesse.
3. /ɛ/ em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) em que a primeira seja <n, m> ou seguida de <rr>: ferrerst, Hemm, End, Engel, Eng, Kerreb.
4. /eː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante: leve, scheme, ene.
5. /eː/ ou /eɪ̯/ quando seguido de <er(C)>: Deer, fekeerd, meer.

Ë: /e/: tëlëfon, ëlektrisch, Tëlëvisong, guvërneere.
Observação: alguns falantes tendem a fechar esta vogal e pronunciá-la /i/em algumas palavras como Nennëëgaal, Mëlon.

EH: 1. /eː/: Weh, Mehl, gehn, wehle.
2. /eː/ ou /eɪ̯/ quando seguido de <e> ou <er(C)>: lehe, drehe, Leher.

EI: /aɪ̯/: Sei, Heirat, Dummheit, Zeid, Leit, Ei.

ER: 1. /ɐ/ quando átono: awer, immer, Ewert, hunnerd.
2. /ɛ/ quando tônico seguido de outra consoante: Stern, fertich, Errebs.

ËR: /eɾ/: Guvërneer, intërneere.

EU: /ɔɪ̯/: weuch, Hambeuch, Eu, Meunt, Schreu, neun.

F: /f/: Fatter, fa, Aff, uff, laafe, froh.

G: /k/: gans, gemacht, gehn, grien, glaave.

GH: 1. /x/ após <a, o, u>: Daagh, hogh, Besugh.
2. /ç/ após <ä, e, i>: Kriegh, meeghlich, Rëghion.

H: /h/: Haus, heere, dehemm, gehong.

I: 1. /i/:
1.1 em sílabas átonas: Kaffi, nimmiincëntiveere, Millich, automatisch;
1.2 em sílabas tônicas seguidas de mais de uma consoante (escrita): iwer, immer, Ding, Fisch, ich, Millich;
1.3 nas palavras in, sin, mit, bis, is.
2. /iː/ em sílabas tônicas abertas ou seguidas de apenas uma consoante (escrita): Bentevi, Fis, Bivel.

IE: /iː/: nie, Flieghel, Gemies, grien, Bien.

IEH: /iː/: kiehl, Lieh, ziehe, wiehe.

IH: /iː/: sihn, frih, Mihl.

J: /j/: ja, jetz, jimand, Joher.

K: /kʰ/ no início de palavras, seguido de vogal: Kaste, korz, kenne, Kamp, Kamel, Kaffi.
/k/ em outras situações: Krien, Hoke, eeklich, Bank.

L: /l/: Land, ball, kalt, wellich.

LLI (+vogal): /ʎ~lʲ/: Millie, Famillie, Pillia, Barullie.

M: /m/: Mann, immer, dumm, dreime.

N: 1. /ŋ/ antes de <k, g, c>: dunkel, ëncontreere, Schrank, denke, Englisch.
2. /n/ em outras situações: noh, Nenne, dann, Sohn, hin, Dorn.

NG: /ŋ/: Bang, singe, Finger, eng.
Observação: muito comumente é palatalizado [ŋʲ] após /i/, tornando-se similar à pronuncia do NH do português.

NGJ: /ɲ~ŋʲ/: Gafangjott, Lingjasse, Pingje.

O: 1. /o/:
1.1 em sílabas átonas: Kolonie, monteere, normal.
1.2 em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) que não seja <m, n, r>: Gott, Glock, Hols, owe, Rost.
2. /ɔ/:
2.1. em sílabas tônicas seguida de mais de uma consoante (escrita) em que a primeira seja <n, m> ou seguida de <rr>: Korreb, Sonn, Sommer, komme, sonst, Storrem.
2.2 nas palavras schon, fon.
3. /oː/ em sílabas tônicas abertas ou seguida de apenas uma consoante: hogh, Stros, wo, don, Mëlon, blose.
4. /oː/ ou /oʊ̯/ quando seguido de <er(C)>: Hoer, feloer, geboer.

OH: 1. /oː/: noh, Schroh, moh, Kohl, Lagoh.
2. /oː/ ou /oʊ̯/ quando seguido de <e> ou <er(C)>: woher, Bohe, Oher, Joher, Wohe.

OI: /oɪ̯/: oi, Moie.

OR (+consoante): /ɔ/: korz, Wort, Korst.

P: 1. /pʰ/ no início de palavras, seguido de vogal: Pack, Pein, Piff, Putsch.
2. /p/ em outras situações: platt, KoppPrim, schuppe.

QU: /kv~kw/: Quell, quatsche.

R: 1. /r/:
1.1 no início das palavras: Reis, rund, rod, Ratt;
1.2 no final de sílabas, exceto se a vogal anterior for <e> ou <o> tônico e a consoante seguinte não for outro R: normal, färrve, nërvees, derr, aarme.
2. /ɾ/ entre vogais ou entre uma consoante e uma vogal: Kraut, braun, Karre, Lehrer.
3. mudo quando segue <e> ou <o> tônico e a consoante seguinte não for outro R: korz, Stern, fort, Herz.

S: 1. /ʃ/ antes de <p, t>: Statt, Spinn, Fest, Wesp, Brust.
2. /s/ em outras situações: Salssies, Schwesder, basse, lese, huppse.

SCH: /ʃ/: Schrank, schwatz, scheen, Disch, Esch.

T: 1. /tʰ/ no início de palavras, seguido de vogal: Tass, Torrem, Tempel.
2. /t/ em outras situações: treffe, hatt, Brust, bedeite.

TSCH: /t͡ʃ/: deitsch, ritsche, batsche, Knatsch.

TZ: /t͡s/: Hitz, Katz, kotze.

U: 1. /u/:
1.1 em sílabas átonas: Cutiseer, Dëputaaade;
1.2 em sílabas tônicas seguidas de mais de uma consoante (escrita): unne, uff, krumm, huppse;
1.3 nas palavras un, um, schun.
2. /uː/ em sílabas tônicas abertas ou seguidas de apenas uma consoante (escrita): du, Wut, Rut, Zugh, Bub.

UH: /uː/: SchuhUher, Kuh, Stuhl.

UU: /uː/: huuste, Puups.

V: /v/: Ove, leve, Vaso, Vokale, Kerrver.

W: /v/: Wasser, wo, awer, gewe, iwrich.

X: /ks/: Hex, Ax, extra.

Z: 1. /t͡s/: Zimmer, Zaanaaz, Herz.
2. /t͡s/ ou /s/ após <n>: Danz, Mienz, ganz, Menz, Panz.

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A ortografia do Hunsriqueano Riograndense segundo Boll, quinta parte – Die Ortografie fom Riograndenser Hunsrickisch noh Boll, finnefter Deel

O problemático R – Das problëmatisch R

O fonema /r/ do hunsriqueano riograndense é com certeza o de comportamento mais instável se comparado, por exemplo, com o alemão padrão, especialmente no que se refere à sua realização ao final de uma sílaba. Vamos tentar analisar seus diversos comportamentos a seguir.

R inicial – Aanfängliches R

Ao iniciar uma palavra, a consoante R tende a ser pronunciada como um golpe (tap) alveolar [ɾ] ou, mais frequentemente, como uma vibrante alveolar [r]. Ele jamais é pronunciado de forma uvular como no alemão padrão. Exemplos: rot, Reis, richtich, Ratt.

O R pode ser o segundo fonema de uma palavra, ocorrendo após /p, t, k, f, ʃ/. Neste caso, a pronúncia é praticamente sempre como um golpe alveolar [ɾ], da mesma forma que as sequências de consoante + r no português. Exemplos: braun, Prëgiss, drei, Trepp, froh, schroh.

R intervocálico – Intërvokalisches R

Quando aparece entre duas vogais, R é pronunciado como um golpe alveolar [ɾ]. Estes Rs podem ser oriundos de um /r/ original ou de uma lenição de /d/, como tratado anteriormente. Exemplos: Karre, Uhre, keere, Brurer

R final – Abschliesenes R

Em alemão padrão, a consoante R, ao final de uma sílaba, costuma ser pronunciada como uma semivogal [ɐ̯], possibilitando ditongos com todas as vogais do idioma, exceto com o schwa /ə/, com o qual se combina para formar um [ɐ] vocálico na terminação <-er>.

Em hunsriqueano riograndense, a sequência schwa+R <-er> também é pronunciada [ɐ] (tratado como um alófono de /a/ para simplificação, visto que não é fonemicamente distinto desta vogal). Em outros casos, porém, sua realização depende da vogal que o antecede e da consoante que o sucede.

1. R antes de coronais /t, t͡s, ʃ, l, n/ não é pronunciado. Numa comparação com o alemão padrão:
1.1 alemão -art, -arz, -arsch, -arl: hunsriqueano riograndense -att/-aat, -atz/aaz, -aasch, -aal. Como não é pronunciado e nem altera a qualidade da vogal precedente, não é grafado e, numa análise interna do idioma, pode ser considerado inexistente. -art/-aart/, -arz/-aarz, -aarsch, -aarl. [Numa revisão da ortografia, decidi manter esse R, que é mudo, por conta de outras situações de um R mudo depois de A que, se não escrito, tornava a ortografia muito irregular].
Exemplos: hart, waarte, schwarz, Zaanaarz, Aarsch, Kaarl
(Compare alemão hart, warten, schwarz, Zahnarzt, Arsch, Karl)

1.2 alemão -e/i/ö/ürt, -e/i/ö/ürz, -e/i/ö/ürsch, -e/i/ö/ürl, -e/i/ö/ürn: hunsriqueano riograndense -ert, -erz, -ersch, -erl, -ern. Não é pronunciado, mas altera a qualidade da vogal de [e] para [ɛ], sendo portanto grafado.
Exemplos: Werter, Herz, Kersch, Kerl, Bern
(Compare alemão Wörter, Kirsche, Kerl, Birne)

1.3 alemão -o/urt, -o/urz, -o/ursch, -o/urn. Assim como no caso anterior, altera a qualidade da vogal de [o] para [ɔ], sendo portanto grafado.
Exemplos: Wort, korz, Schorsch, Dorn
(Compare alemão Wort, kurz, Jorge, Dorn)

2. R antes de labiais /p, f, m/, um schwa é inserido entre as duas consoantes, criando uma sílaba extra e tornando o R intervocálico e, portanto, pronunciado como [ɾ]. Este schwa desaparece caso uma terminação vocálica seja acrescentada à palavra, fazendo o R se tornar final e pronunciado [r] ou [ɾ].
Exemplos: Forreb/Forrve, schaaref/schäärfer, Scherrem/Scherrme
(Compare alemão Farbe/Farben, scharf/schärfer, Schirm/Schirme)

3. R antes de dorsais /k, ç/, um /i/ é inserido entre as duas consoantes, criando uma sílaba extra e tornando o R intervocálico como no caso anterior. Este /i/ desaparece caso uma terminação vocálica seja acrescentada à palavra apenas nos casos de /k/, permanecendo nos casos de /ç/, visto que essa consoante não pode ocorrer após outra consoante (exceto no sufixo diminutivo -che). Exemplos: staarik/stäärker, Kerrich/Kerriche
(Compare alemão stark/stärker, Kirche/Kirchen)

Observação: para alguns falantes, as sequências <-errich> e <-orrich> são pronunciadas sem o R, criando ditongos /ɛɪ̯ç/ e /ɔɪ̯ç/, respectivamente, podendo ser grafados como <-äich> e <-euch>.

4. R sem consoante sucedendo. Sua pronúncia depende do comprimento da vogal que o precede.
4.1 Precedido por vogais curtas, é pronunciado [r]. Ocorre frequentemente após /e/, alterando sua pronúncia para [ɛ], e teoricamente após /o/, alterando sua pronúncia para [ɔ].
Exemplos: Herr, derr, Gescherr 
(Compare alemão Herr, dürr, Geschirr)

4.2 Precedido por vogais longas (exceto /aː~ɔː/), é pronunciado como /a/ (ou mais precisamente [ɐ]), sendo silábico e escrito como <-er>.
Exemplos: Deer, Dier, puer, Hoer
(Compare alemão Tühr, Tier, pur, Haar)

4.3 Precedido pela vogal longa /aː~ɔː/, não é pronunciado e nem altera a qualidade da vogal, portanto não ocorre na escrita. Exemplos: waar, Paar, gaar
(Compare alemão war, Par, gar)

4.4 Precedido por um schwa /ə/, funde-se a este tornando-se [ɐ], como já citado no início desta seção.
Exemplos: Feier, Hunger, iwer
(Compare alemão Feuer, Hunger, über)

4.5 Em palavras recentes emprestadas do português, pode ser pronunciado como no original. Exemplos: Computador, Singular

A “coloração” de R – Die “Färrvung” fon R

Como visto acima e também na descrição das vogais, um R seguindo E ou O curtos faz com que estas vogais se tornem mais abertas. Basicamente, os protofonemas /i/ e /e/ tornam-se [ɛ], enquanto /u/ e /o/ tornam-se [ɔ], representados na ortografia como <er> e <or>. Assim, pode-se dizer que I e U curtos nunca ocorrem antes de R “primitivo”. Eles apenas podem ocorrer se este R for resultado a lenição de D, pois esta situação não afeta a vogal, como no caso da palavra schirre /ˈʃiɾə/ (derramar), a partir de uma forma primitiva *schidde: compare as formas conjugadas schidd (derrama) e geschudd (derramado).

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A ortografia do Hunsriqueano Riograndense segundo Boll, quarta parte – Die Ortografie fom Riograndenser Hunsrickisch noh Boll, fierter Deel

As fricativas do hunsriqueano riograndense – Die Frikative fom Riograndenser Hunsrickisch

O hunsriqueano riograndense distingue seis fricativas, sendo cinco surdas, /f, s, ʃ, x~ç, h/ e uma sonora /v/.

A ortografia das fricativas – Die Ortografie fon de Frikative

/f/: escrita <f> ou <ff>. Exemplos: Feier, AffFatter, Fuchs, finnef

Diferente do alemão padrão, onde tanto F quanto V são usados para representar /f/, em hunsriqueano riograndense usa-se somente F.

/s/: 1. Escrita <s> ou <ss>. Exemplos: sies, Sonn, Tass, basse, huppse

2. Escrita <c> antes de <e> e <i> em alguns empréstimos do português. Exemplos: Accident, anuncieere.

/ʃ/: 1. Escrita <sch>. Exemplos: scheen, Disch, lepschSchrank, Schwein

2. Escrita <s> nas sequências /ʃt/ e /ʃp/. Exemplos: Statt, festSpinn, Wesp

3. O som /ʃ/ é usado na pronúncia de palavras emprestadas do português, do francês e de línguas indígenas que possuem originalmente os fonemas /ʃ/ (escrito CH ou X) e /ʒ/ (escrito G ou J). Estes termos em sua maioria trocam a grafia em questão para usar SCH. Exemplos: Schakett (jaqueta), Scharack (jararaca), Ransch (laranja), Coraasch (coragem), Plantaasch (plantação), Caschumbe (caxumba).

As exceções compreendem:
3.1. Termos do português iniciados com CH, os quais mantém a grafia deste dígrafo. Exemplos: Cha (chá), Charutt (charuto)
3.2. Termos do português com J precedidos de vogal longa, os quais mantém esta grafia. Exemplo: Soja (soja)

/x~ç/: 1. Escrita <ch> após vogais curtas e ditongos e no sufixo diminutivo <-che>
2. Escrita <gh> após vogais longas.
Exeção: aach
Os fonemas [x] e [ç] são alófonos de uma mesma consoante, sendo que:
a. [x] ocorre apenas após vogais posteriores, ou seja, /a, aː, ɔː, o, oː, u, uː/ e após o ditongo /aʊ̯/. Exemplos: aach, Bach, Woch, suche, hogh, Daagh, brauche, Zugh 

b. [ç] ocorre apenas após vogais anteriores, ou seja, /ɛ, ɛː, e, eː, i, iː/, após os ditongos /aɪ̯, ɔɪ̯, (ɛɪ̯)/ e no sufixo diminutivo <-che> /çə/. Exemplos: Nächt, Määghe, ich, Kriegh, Wegh, wech, gleich, weuch, Käich, Medche

Observação: em palavras nativas, esta consoante somente ocorre no final das sílabas e após uma vogal, sendo a única exceção o sufixo diminutivo <-che>.

/h/: Escrita <h>. Ocorre somente no início das sílabas. Exemplos: Haus, heit, Hols, Himmel.

Observação: lembre-se que um H após uma vogal no final de uma sílaba apenas indica que a vogal é longa e não é pronunciado.

/v/: 1. Escrita <w> no início de palavras nativas ou após vogais curtas: Exemplos: Wasser, weid, Zwiwel, awer, gewe, iwer

2. Escrita <v> no início de palavras emprestadas (do latim e do português, principalmente) e após ditongos e vogais longas. Exemplos: Vaso, Vokal, leve, glaave, sauver

Observação: as sequências /ʃv/, /kv/ e para alguns também /t͡sv/, grafadas respectivamente <schw>, <qu> e <zw>, são pronunciadas frequentemente [ʃw], [kw] e [t͡sw]. Exemplos: schwatz, Quell, Zwilling.

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O que é o Hunsriqueano Riograndense? Was is de Riograndenser Hunsrickisch?

O Hunsriqueano Riograndense é um idioma falado no sul do Brasil, especialmente no estado do Rio Grande do Sul. Para alguns é enquadrado como uma língua, para outros apenas como um dialeto do alemão. O certo é que se trata de um idioma próximo do alemão palatino (Pfälzisch), falado na região de Rheinland-Pflaz (Renânia-Palatinado), na Alemanha, e se desenvolveu a partir do idioma falado pelos imigrantes alemães que chegaram ao Rio Grande do Sul a partir de 1824 e se instalaram na região. Estes imigrantes vinham em sua maioria da região de Hunsrück, um vale em Rheinland-Pfalz e falavam a variação do idioma Pfälzisch desta região. Com o passar dos anos, o idioma foi influenciado por outras línguas locais do Brasil, incluindo o português, o italiano e línguas indígenas, além de outros “dialetos” do alemão, como o Pomerano, o Plautdietsch e mesmo o alemão padrão, já que este era a língua “oficial” usada em publicações, em documentos e no ensino nas escolas.

Apesar de ser o idioma alemão mais falado no sul do Brasil, com estimativas de cerca de três milhões de falantes (segundo a Wikipedia, mas a fonte do dado não é citada), a frequência de aprendizado em gerações mais novas vem decrescendo. Hoje em dia, a maioria dos falantes é composta de adultos, o que a torna uma língua possível de ser extinta em poucas gerações.

Um ponto chave que contribuiu para a desvalorização e consequente declínio do idioma foi o fato de o governo brasileiro proibir o alemão de ser falado no país durante o período da Segunda Guerra Mundial, o que forçou muitos habitantes da região a aprenderem o português, que até aquele momento não era a língua principal de comunicação na região, e restringiu o uso do hunsriqueano riograndense a conversas “dentro de casa”. Nesta época e depois foi comum a associação, por parte de outros povos, dos descendentes dos imigrantes alemães a ideias nazistas, mesmo que a comunidade local não possuísse qualquer contato considerável com a Alemanha havia mais de um século. Como consequência, muitos dos descendentes de alemães passaram a ter receio de usar o idioma publicamente e muitos preferiam não ensiná-lo aos filhos por causa do estigma causado.

O objetivo deste blog é, assim, auxiliar na divulgação e no ensino do hunsriqueano riograndense de maneira a contribuir tanto quanto possível na sua preservação.

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